Moçamedenses: encontros e reencontros

Esta chuva de ti/ deixa cair pedaços de tempo/ pedaços de infinito/ pedaços de nós mesmos// é por isso que estamos/ sem casa nem memória?/ juntos no pensar/ como corpos ao Sol? Juan Gelman, Dibaxu, XXV, p. 69

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Encontro da família Jardim e amigos da familia no "Jardim da Cerveja" em Cascais em 04.Set. 2011












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Etiquetas: Encontros da familia Jardim

Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Encontro anual de moçamedenses na mata das Caldas da Rainha: 07.08.2011










































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Etiquetas: 2011, Encontro de moçamedenses; Caldas da Rainha
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Encontro moçamedenses nas Caldas da Rainha 1911 (Video)

Muxima, Amanhã (Homenagem a Duo Ouro Negro)







Encontro anual dos Alunos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes

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Angola...

Somos aos milhões perdidos,
pelo mundo divididos.
Vivemos noutros países,
presos às tuas raízes.
Pelo tempo divagámos,
Já contámos a história,
lições que a memória teima em recordar.
És a força estranha que acompanha as horas doridas,
paixão que não passa,
peso que arrebata
a paz das nossas vidas.

Minah Jardim - (Adaptado)
Fonte: Blogue "Lupango da Jinha"


Oh, noites de Angola! Noites de magia tropical, de sedutora beleza e perfume inebriante! noites puras e sensuais ao mesmo tempo, em que a alma ingénua de uma criança se possa aliar ao sangue quente da mocidade! Noites que não têm principio nem fim, porque nasceram não se sabe quando, e morrerão só quando deixarem de ser noites de Angola.

Noites da minha terra! Noites que são pedaços de mim próprio, porque na pureza do ar está a pureza da minha alma e, na sensualidade do mistério que as envolve, está a sensualidade do meu sangue quente desse sangue que eu sinto ferver dentro de mim!

Noites de Angola! Noites da minha terra! Poemas imorredoiros de Amor e Paz, escritos pela Mãe Natureza, destes à luz da vossa sombra a alma eternamente enamorada que eu sou!

Noites de Angola – porque tão longe me ficastes?

Saudade meu bem Saudade……

Lisboa 1958
publicado por H. Nascimento Rodrigues (Provedor de Justiça) in www.ouvidorkimbo.blogspot.com




Os MEUS VIDEOS PARA VER , OUVIR, RELAXAR E...MATAR SAUDADES (clicar sobre os títulos):

- Moçâmedes cidade 1
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-A caminho do Lubango
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    6. Moçâmedes DESPORTO: slideshow FLICKR
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[0033tt.jpg]

O destino plantou-me aqui
e arrancou-me daqui
E nunca mais as raízes
me seguraram bem em nenhuma terra

Ter um destino

é não caber no berço onde o corpo nasceu,
e transpor as fronteiras uma a uma
e morrer sem nenhuma.

Miguel Torga

In Fernão de Magalhães
Antologia Poética, Lisboa: D. Quixote, 1999.

[0033uuu.jpg]

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Esta chuva de ti/
deixa cair pedaços de tempo/
pedaços de infinito/ pedaços de nós mesmos//
é por isso que estamos/
sem casa nem memória?/ juntos no pensar/
como corpos ao Sol?

Juan Gelman, Dibaxu, XXV, p. 69


[angola2008+300.jpg]

E o árido deserto do Namibe transformou-se num belo jardim...


Poema : Quando eu voltar...

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...


Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...


Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...


Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...


Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...

E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:

Voltei!...

Alda Lara (Angola)
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............

Como sou


Com asas sempre fomos

Crescemos de vela em vela

Ao sabor das ondas


E na maré o tempo

Furámos brumas caducas

Rasgámos dos céus negrumes,


Vencemos garroas e calemas

Bebemos águas insalubres

Soubemos da chuva o improvável,


Mas a vida brotou perene

Das areias, nas águas, da porfia

No anzol do gancho

Por sua vez

Com ribombos do trovão

Nos aterraram


E aqui somos

Fora do tempo e do espaço


Sabendo o que fomos

E ao que vamos.


Adamário Costa Lindo

06.12.2005


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..................

Encontrei na Net esta referência às comemorações do 04 de Agosto, na cidade do Namibe. Gostei. Sobretudo pela maturidade política que o gesto encerra que é de evidenciar. Bem haja!


«De Luanda partiu um voo com mais de 80 pessoas, que se integraram nas actividades locais de forma «alegremente contagiosa». Valeu a excursão, liderada por elementos que organizaram os festejos em 2005. Mas valeu mesmo foi a camaradagem entre todos os naturais e amigos do Namibe, residentes e não residentes, membros do Governo e cidadãos comuns que às actividades se decidiram juntar. Curiosidade foi um grupo de (novos) amigos que, ao saberem da excursão decidiram juntar-se a nós sem qualquer vínculo com a terra. Tanto quanto sabemos, foi uma ótpima experiência tanto para eles como para nós, que esperamos sirva de exemplo para que Angola se (re)comece a descobrir.
No dia 3 houve debate acerca dos dias de ontem, hoje e amanhã, muito participativo e cheio de ideias apresentadas pelos jovens residentes no Namibe. Houve também missa, exposições e desfile de embarcações pesqueiras. Depois vale falar da festa de 4 para 5 no salão do Sporting, da Tertúlia na sede da Cultura e do Meio na Estufa Municipal. Nestes últimos participaram artistas naturais e amigos, tendo-se destacado de entre outros a Banda Odisseia, Akapanan, Bigu, Kangato... Ouviram-se poemas de Neco Manjericão entre outros, .... Namibe, Namibe, Namibe... cantaram muitos naturais e amigos, ...da minha saudade, cidade de Angola, Angola Nação (Raul Pequenino, para quem é desse tempo).
Quanto ao grupo de excursionistas, teve também a oportunidade de visitar a "Lagoa do Arco", e de entregar algumas ofertas recolhidas ao longo do ano. Para os detalhes da excursão, fica aqui um apelo aos mais "participativos" para que enriqueçam estas linhas. Contamos também com a publicação das fotos.
Um Kandando,
Maísa Tavares»
in NAMIBEONLINE



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Contador: desde 19.10.2007 às 0.40 h






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LAMENTO DO MENINO GRANDE


Sim, eu choro…
… choro por estar longe da minha Angola querida,
distante do meu saudoso chão.
… choro porque já não vejo o voar do “rabo-de-jun-
co”, nem a garotada jogar à bola no terreno do
subúrbio.

… choro porque já não vejo o azulinho do “papo-ce-
leste”, o vermelhão de uma queimada surgida ao
longe, nem o sol a esconder-se por de trás do Pon-
ta-do-Pau-do-Sul.
… choro porque já não vejo a imensidão das praias
do Chiloango e do Arimo, nem a grandeza do meu de-
serto de Moçamedes.

… choro porque não descubro o fim de uma picada,
nem saboreio o pirão, o musonguê, a manga e a bu-
lunga.
… choro porque já não vejo o sorriso aberto do ne-
grinho humilde, nem sinto a amizade do mulato pim-
pão.

… choro porque já não vejo a elegância da gazela, a
curiosidade da “suricata”, nem a secura da lendária
Welwitschia mirabilis.
… choro porque já não vejo a beleza das garotas
praieiras, nem leio os poemas que elas inspiraram.

… choro porque já não vejo uma rebita bem puxada,
nem oiço o barulho de um batuque, nem gozo o calor
de uma fogueira numa anhara.
… choro porque já não passeio na marginal da minha
baía, nem percorro o caminho das palmeiras até às
furnas.

… choro porque já não vejo o Castelinho de S. Fernando,
nem sinto o silêncio de uma madrugada quente, nem
oiço as histórias do velho boiadeiro da lagoa.
… choro porque já não vejo o túmulo dos meus antepas-
sados e tudo que eles criaram.

… choro porque só vejo o luto em Angola, a traição
e o lamento.
Sim, eu choro…
… choro de saudade!

Fernando Moraes

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MOÇÂMEDES


Amanhece o dia neste bairro...
Pelo lado do deserto a luz doce
lenta se levanta, por baixo do cirro,
espreitando-a, como se lânguida fosse...

Cidade espraiada, assim amanhecida,
aguardando em preguiça os afagos,
ansiando calma de certeza já sabida,
amante vivida, de tão doces fados...

Moça, medes teus modos, lenta,
leve, branda doçura do deserto;
morena, brincas com as paixões!

Moça, medes teus modos? Tenta,
as suaves marés estão já perto;
julgas que resistem os corações?

José Kahango
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ISTO É MOÇÂMEDES

Há cheiro a maresia
Aves a cantar
Hortas verdejantes
Dão triunfantes
o braço ao mar

Refrão

Branca areia a brilhar
Isto é Moçâmedes
Espuma do verde mar
Isto é Moçâmedes
Um deserto escaldante
Isto é Moçâmedes
Um céu limpo sem par
Isto é Moçâmedes
Mil seguros no ar
Isto é Moçâmedes

Traineiras apitando
Lá vais pescador
E o sol espreitando
Está te enviando
Um beijo de amor.

Teresa Ressurreição

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MOÇÂMEDES

Moçâmedes
nasceu à beira mar
banhada p'lo luar
beijada p'lo deserto
Moçâmedes
nasceu de uma odisseia
que fez de um grão de areia
um lindo céu aberto

Moçâmedes
da gente que labuta
Numa constante luta
Para ganhar seu pão
Moçâmedes
de Portugal velhinho
cabes toda inteirinho
dentro de um coração!

Moçâmedes, Moçâmedes....


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Amar Angolanamente IV

O pavor dos dias que se esgotam
consome-me neste pântano profundo e escuro,
este túnel da noite sem fim
de peregrinação forçado.


Brame em mim, violentamente,
o silêncio sufocando dos tantans
que explodem em meus nervos,
em minhas veias,
trazendo-me o tilintar dos guizos feiticeiros
e o ar carregado de perfume
que emana do teu corpo inebriante
Pátria amada!

Esta expiação,
esta calema enraivecida
retalha-me o sonho
- ânsia rebelde de te voltar a ver
Iona,
de te voltar a abraçar
Miminha.

Noite após noite
dia após dia,
visões sombrias me cingem
e me metamorfoseiam
em sílex dos tempos.

Dói-me o silêncio catacúmbico
desta condenação envenenada
de desespero,
- amarga confiscação da esperança
tatuada de sangue
na minha alma.

Pena maior
que a vida perdida por renúncia,
o degredo a que estou confinado
é bemba roendo-me as entranhas
num exílio amargurado.


Eduardo Brazão-Filho
(Mossungo)
"Amar Angolanamente - Poemas de Exílio", inédito

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magia do deserto...

sob um céu nu
de nuvens despido
a tons d'azul e dourado...
no fio do horizonte
há terra à vista...
em extensas miragens
rasga-se o verde repassado...

gazelas saltitando
avestruzes se bamboleando
vivendo... estão
vivendo... vão

dando tempo ao tempo...
recortando o céu
espinheiras bravias
afagadas de vento...

em boa vizinhança
seculares welwitchias
são tempo d'um tempo
em mote à perseverança...

e... ei-las a céu aberto
suas vaidades desfilando
exibindo-se ao mar sereno...
donas são... do deserto!!!

expositiva alegoria
nuances de saudade...
no deserto a magia
de tempo inacabado!!!

de:aileda/adeliavaz
In Mazungue


MOÇÂMEDES

Aos naturais de Moçâmedes

E aos moçamedenses de coração

Quero dedicar estes versos

Tributo da minha admiração.


“Labor Omnia Vincit”

Dizia a divisa no teu brazão

Muitas décadas se passaram

Mas ainda a recordo com emoção


A “Welwitshia Mirabilis”

Que bem recordo por certo,

Era planta ùnica no Mundo

Existindo apenas no teu deserto.


Na costa do Atlântico nasceste

E do Namibe eras princesa

Nem os ventos do deserto

Destruiram a tua beleza.

Oceano de àguas profundas

Cuja fauna estimulava os pescadores;

As àguas tentadoras da Praia Amélia

Seduziam os mergulhadores.


No fundo do mar entre as rochas

As àguas eram transparentes.

Até as plantas se curvavam

Para saudar os adolescentes.


A antiga Escola Comercial

Pequena mas cheia de tradições.

Ajudou centenas de jovens

Nos seus sonhos e aspirações.


Viam-se aos domingos na baía

Barcos de velas ao vento

Onde jovens à “bolina”

Mostravam o seu talento.


Os bairros novos iam crescendo

Desafiando o àrido deserto.

Imensurável esforço moçamedense

Orgulhoso mas de coração aberto.


Para os lados da Torre do Tombo

Construiu-se o cais acostável.

A habitual visita aos “Paquetes”

Era agora mais agradável.


Do outro lado da baia

Outro grande empreendimento

O porto mineiro do Giraul

Uma boa fonte de rendimento.

Os comboios vindos de Cassinga

Ali deixavam a carga preciosa;

A automatização daquele porto

Era uma obra muito valiosa.


A agricultura ia progredindo

Olivais e vinhedos cresciam.

Um mercado muito competitivo

Que os da Metrópole temiam.


Num remoto dia tive que partir

Contudo sempre te mantive

Num canto do meu coração.


publicado por Tony Aguiar

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NAMIBE


Grande é o Namibe
Aquém e além Cunene
Vida em murmúrio a passar.


Grande é o Namibe
e a alma-poeta
uma grande Welwitschia Mirabilis
macho e fêmea
cio em flor
no deserto vida teimosa a rasgar.


Namibiano Ferreira

África


De rios e mar me fales, sem peneiras,
sei que bem podes, traz tua maré;
traz-me córregos, regatos, cheias até:
que fale a pura água de tantas maneiras...

Sabemos quando o trovão soa distante,
como tudo se interrompe nesse instante;
e p'ra que lado se volta a nossa memória:
correndo p'ro lado mais doce da História...

É a mãe África que de longe nos chama...
a mãe de todos nós, a Natureza eterna,
a Fonte das Águas, a chuva e a fogueira.

E caso estendas no deserto a tua cama,
sob o estrelado céu do estranho Iona,
lá, virão os pastores kuvale à tua beira.



Zé (Kahango) Frade

O Voo do Flamingo
(colagem poética)



voltar, amigo, é fácil
basta abrir a cicatriz,
sofrida, da alma dúctil
e seguir pela matriz

corrente rio que nos dá memória:
picada batida
a ferida aberta
em flor, a floresta
daquilo de somos e não perdemos
a vida partida
ofensa sarada
e o que nos resta:

a glória

de ser.

se escondemos a cortina da memória
é por querermos
sê-la inteira
e inviolável -

nem todos sentem
o que trazemos
na idade,

se encobrimos a retina da história
é por sabermos
tê-la arteira
e agitável -

nem todos sentem
o que guardamos
na saudade:

rojeira de âncora espedaçada pelo meio

cortina de água escorrida pela face
amor, impasse
ardor, paixão
réstia de mar desabrochada em cachão

fibra da alma extorquida pelo veio.


com asas sempre fomos.
crescemos de vela em vela
ao sabor das ondas

e na maré o tempo
furámos brumas caducas
rasgámos dos céus negrumes,

vencemos
garroas e calemas
bebemos águas insalubres
soubemos da chuva o improvável,

mas a vida brotou perene
das areias, nas águas, da porfia
no anzol em gancho.

por uma vez
com ribombos do trovão
nos aterraram

e aqui somos
fora do tempo e do espaço,

sabendo o que fomos
e ao que vamos.

pesco com dedos ágeis
geografias da infância
e mergulho fundo no tempo
oceano
a céu aberto

navego a costa sedenta
trepo dunas de sol ocre
e mergulho fundo no tempo
areal
de amor desperto.

pinda,
iona, curoca,
albina
ponta à ingratidão,
baía
barreiras, fundão,
negro cabo do perdão,

e subo
à tona
de alma leve.

corremos na mesma eira
de
matebas deslizantes
pela bola trumunante

e o suor pingue-pingando folias,

vogámos no mesmo mar
de
bimbas mareantes
pelo sonho palpitante

e o salitre morde-mordendo tropelias,

fomos no mesmo areal
carrinhos-
bordão berridantes
fitas buzina sonante

e o sol cloro-filando
casuarinas,

brincámos na mesma duna
soubemos do mesmo livro
saudámos todos os dias
toda hora a mesma calma

e se hoje o areal
filtra vozes do passado e cada passo
verte sombras sobre os trilhos do chão

se há coisas
que nos marcam como as linhas
que sabemos na palma aberta da mão

é da vontade,

a mocidade
que nos fez conquistar em cada amigo um irmão.

vinham do mar
cacimbos
refrescar tombuas sequiosas,
calemas, submersos vulcões
e helio-fornos
provar a fibra sibilina
de homens e mulheres
que agarram a vida
pelos cornos.
vinham navios, botes,
arrastões e palhabotes
encalhar nos fundões ao arear,
que o leteu namibe
contorna de grão a grão
para marcar que ali
só os filhos sabem navegar.

vinham coros boatados,
e as notícias de guerra,
e as guerras de notícia,

e do deserto a garroa colava
areia nos olhos ressudados.

e porque olhámos
sonhámos.

então embarcámos
nas asas do flamingo
o que é valor da fé -
um reflexo cor da rosa
nos espelhos da maré.

aspergimos águas pela face aberta,
o penhor da alma, no arder
e lambemos dos lábios o salitre,
o sabor da sina, no morder.

e voámos
e sonhámos.

e tanto voámos que nos enxergaram
e o sol mirrou,
e tanto sonhámos que nos avistaram
e a lua parou.

então

porque parámos
cuidámos.

sorvemos dos lábios o gemido,
o sofrer do siso, no escorrer
e respingámos prantos pela face nova,
o peso do fado, no renascer.

e crescemos
e vivemos.

e tanto crescemos que nos imitaram
e o sol sorriu,
e tanto vivemos que nos copiaram
e a lua bailou.

hoje carrilhamos
nas asas do flamingo
o que a esperança adia -
um reflexo cor da rosa
nas marés da utopia.


mas voamos
e sonhamos.

Agora
quero voltar ao areal perdido
e catar conchas búzios
e o sonho,

( ao
fimbar nas águas me tonifico
e recomponho )

e amochar esconde-esconde nas cavernas
de um barco pelos anos carcomido.
vou subir às tábuas deslizar nas dunas
e só parar à sombra duma velha casuarina.

beber água da
cacimba
e do batuque nocturno
vou centrifugar
o som enleante da
marimba.

vou pular
correr e saltar pela praia fora
vou fazer o pino
e arriscar pinotes na areia embora.

vou fazer do sonho
um lépido banzé ...
com
os amigos com quem partilho
a língua da maré.

quando escuto estas vozes
folhas da mesma palma,
quando leio estas frases
gérmenes da mesma alma,
vejo-me e sinto-me rei
de um país deserdado.

rostos d'halo luminoso
são a lente diáfana,
a limpidez da memória,
que me traz d'outro espaço
vetusto tempo e venturoso.

salmo
fado ou batuque
lágrima choro asnidade,
casa
cubata ou tapume,
nada lhes trava a vontade.

trazem no peito amarrado
o génio preso à saudade,
buscam no fel a doçura,
fincam do braço a firmeza
e trazem à tona a verdade.


quando leio estas vozes
lírios da mesma palma,
quando escuto estas frases
rosas da mesma alma,
vejo-me e sinto-me rei
de um país reinventado.




admário costa lindo
Portimão, 9 de Junho de 2007


...................................................................................................................

VINHAM DO MAR CACIMBOS
( para o Neco )



vinham do mar cacimbos
refrescar tombuas sequiosas,
calemas, submersos vulcões
e helio-fornos
provar a fibra sibilina
de homens e mulheres
que agarram a vida
pelos cornos.
vinham pinguins escorraçados

de um país ao sul,
a preto-e-branco pintados,
ond’é ignara a soma
de todas as cores
que realiza o negro.
vinham navios, botes,
arrastões e palhabotes
encalhar nos fundões ao arear,
que o leteu namibe
conforma de grão a grão
para marcar que ali
só os filhos sabem navegar.

vinham coros boatados,
e as notícias de guerra,
e as guerras de notícia,

e do deserto a garroa colava
areia nos olhos ressudados.

admário costa lindo
7.06.2005



SONHO

Num preclaro dia, sorria e sonhava;
num silêncio de fogos ao longe,
belo Pássaro azul, despertava,
me dizia: "Voemos, para Maconge!"

Assim sobre nuvens fomos, voámos,
nos extremos asas se tocando,
pelas celestes águas deslizámos,
o Sabedor a rota conduzindo.

Atlântico mar Diogo navegou
em lúcidas marés e brisa forte;
lá nos tempos de antanho desbravou
terra e céus, com a estrela da sorte.

Vão pelo aéreo sonho acicatados,
estes novos nautas, agora alados;
pelo vapor em leveza descendo,
do Cherungo, a enseada avistando.

Tendo a costa e praias sobrevoado,
rumo ao sol, no horizonte alçado;
meu companheiro tudo explicando,
pelo curso do Giraúl nos guiando.

Do Namibe quentes brisas vinham,
asas de outras formas e cores vieram;
pelo riso das águas se alegrando,
da providencial pedra bebendo.

Nas cores do alvor, um sunguiandondo;
lá do norte, bem do Caraculo
um pica-pau vem, aqui bangula.
Alto, o astro-rei, belo e redondo.

Cruzando agora o rio, que é Munhino,
buscando o fluxo do seu afluente,
com o bando cantando, contente,
rápido seguíamos p´ro destino.

Aquando já das margens íamos saindo,
logo me disse meu Amigo de viagem:
"este é bico que vem de passagem:
tal um beija-flor", o mariapindo.

Da Bibala um kinkanga chegou
(tal como alguém disse, é um cuco)
havíamos de escutar o que nos informou:
"Um pouco mais abaixo, fica o Bruco!"

Voando ao lado um sumbo - maçarico
e atrás um xinquengue - periquito;
e já Capangombe avistávamos,
à esplêndida Leba chegávamos!

Terminada a viagem, inda era dia,
duas aves, um sonho e um coração,
cantam agora idêntica canção:
a Maconge, Reino da Fantasia!


publicado por zé kahango

.....................

Dia 8 de Dezembro
(festejos da Srª da Quipola)


em marcha lenta
o comboio lá vai...

voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora da Quipola...

a tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...


cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos na Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade
da Menina-Mãe ANGOLA!!!


em marcha lenta
o comboio lá vai...


(recordando...)

Aileda in Mazungue
África Minha
Porque te deixei?
Não sei...
Talvez, por culpa dos homens e da sua intolerância.
Só sei....
Que sinto saudades de ti.
Estou arrependida de ter-te abandonado.
Por ti choro e penso todos os dias da minha vida.
Fazes-me falta...
África Minha.

Mami - Cazimar

Cântico

Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!

Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!

E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!

Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!

Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
..................................................................................
Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
..................................................................................
Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!

(Angelino da Silva Jardim)
Paraiso perdido

Hoje acordou revolto, alucinado,
O deserto transfigurado!...
As garrôas com asas de satã
Levantaram da terra chã
Serpentes ondulantes, endemoninhados.
E jubas desgrenhadas de leões,
Colunas de poeiras desgarradas,
Como indómitos dragões!...
As dunas enlouquecem,
os cactos contorcidos. estremecem,
E as welwitschias ainda mais prostadas
Fincam no chão as rudes mãos crispadas

Passa nas asas do vento
A bárbara sinfonia
De revolta e de tormento...
Só quando, à hora mansa do poente,
Nasce das coisas uma paz dormente,
A ventania é leve sopro de ânsia,
Morrendo nos soluços da distância...

E o imenso areal prostrado
Tem dentro dele um coração cansado,
Mas que inda grita a quem passa
A sua velha e trágica desgraça
De lagos, rios, fontes que secaram,
De searas e jardins que lhe roubaram...
E sai-lhes das entranhas torturadas
Uma suplica feita aos cavaleiros
Aos poetas, aos zagais e aos pintores,
Sem jeiras para cavar,
Sem rebanhos p'ra pascer,
Sem letras para compor,
sem poemas p´ra cantar
sem novelos p'ra tecer...

E, quando a noite desce,
O pálido deserto adormece,
Numa expressão de prece...
E vao sonhar, em mundos irreais,
Com uma paraíso edénico, perdido...
Que há-de nascer dos próprios areais!...

José Galvão Balsa


HINO AO COLÉGIO DE MOÇÂMEDES

Meu colégio tão querido
Meu vergel de pomos de oiro
Meu canteiro preferido
Meu trigal ainda não loiro.

Somos as flores mimosas
Do jardim no areal
Só tu nos guardas viçosas
Do leste sopro do mal.

À frente o mar buliçoso
Sempre de lá a acenar
Lá longe, ao largo, é forçoso
Querer orar, trabalhar.

Bem perto além o deserto
mensagem nova lição
Vive em paz quem é discreto,
Guarda a língua e o coração.

Aprendi nos bancos teus
A lição que vou guardar
A Família, a Pátria e a Deus
Ama com amor sem par.

Quando te deixar um dia
Hei-de guardar em meu peito
Esta eterna melodia
De gratidão e respeito!

Marcha do 1º Centenário de Moçâmedes

I
Assim toda engalanada
Digo orgulhosa ao mar
Olha para mim
Como vou bela ao passar
II
Quero viver minha festa
Quero rir, quero folgar
O Mar imponente
Grita a toda a gente
Vai Moçâmedes a passar
III
Sou há um século nascida
Velhice inda não senti
Tive horas de glória
Enchi minha história
De rosas que então teci

IV
As minas lindas Miragens
Todos vão admirar
Sorrindo ao céu
Sinto o mundo meu
Quando ouço assim cantar

REFRÃO
Num areal doirado
Pelo sol beijado
Há já cem anos nasceu
Moçâmedes gentil
Bela e juvenil
Pertinho do mar cresceu

Hoje, embandeirada
Princesa encantada
Do Namibe o seu senhor
Sente
mar confiante
Dizer radiante
Ai que linda vais amor.

(autoria : Teresa Ressurreição)

O OÁSIS

Pelo deserto seguíamos, há já muito,
para trás cruzáramos o Munhino
e as grandes rochas à beira do caminho.

Pedras, muitas pedras, a que há séculos
os colonizadores indagaram seus mistérios,
que antes lhes veneraram os mucubais os segredos.

Descendo agora a íngreme encosta,
ao longe abaixo distinguimos já um verde vale,
deslumbre espantoso na rude paisagem -

o oásis do Giraúl !

De súbito terminava a secura, com um lago de nenúfares,
verdejantes milheirais e frescura acolhedora!
À beira da estrada, logo nos vinham vender maçarocas fumegantes...

__________________
josé (Kahango) frade

Marcha do Bairro Novo (S. João)


Surge alegre, o Bairro Novo
Cheio de côr e de cantigas
Bairro Novo, Bairro Novo
Na alma das raparigas

Estoiram, foguetes no ar
à luz de vivos balões
Lume vivo a crepitar
fogueiras, nos corações.....

Terra de beleza
É Moçâmedes
Rica em singeleza
É Moçâmedes
Moçãmedes sonhadora
És joia sedutora
Do sul és a princesa

etc....

MOÇÂMEDES

Moçâmedes...
nasceu à beira mar
banhada p'lo luar
beijada p'lo deserto
Moçâmedes...
nasceu de uma odisseia
que fez de um grão de areia
um lindo céu aberto

Moçâmedes...
da gente que labuta
Numa constante luta
Para ganhar seu pão
Moçâmedes...
de Portugal velhinho
cabes toda inteirinho
dentro de um coração!

Moçâmedes, Moçâmedes....

....................................................................


Versejando Saudade à minha maneira....(1ª parte)

1.
Saudade da minha terra
do bairro onde nasci,
das ruas por onde andei,
dos parques onde brinquei
dos amigos que perdi
2.
Saudade da Praia das Miragens
e dos bailes do Casino,
da jangada e das arcadas,
dos filmes de cowboiadas,
e do quiosque do Faustino.
3.
Saudades da Escola de Pesca
e da Escola Comercial,
do Parque Infantil e do Horto,
dos navios atracados no porto,
e do Mercado Municipal.
4.
Saudades das esbeltas cuanhamas,
e das exóticas mucubais,
saudades dos caranguejos gigantes,
das gazelas elegantes ,
e dos triunfos do Novais.
5.
Saudades do coreto do jardim,
e dos «Programas da Simpatia»,
saudades do Saco do Giraul ,
da Ponta do Pau do Sul,
do Canganiça e do tio Alegria.
6.
Saudades do quino do Atlético,
dos rissóis e dos «molhadinhos»,
saudades dos cachorros quentes do Ferrão,
dos empréstimos a juros do Leão,
e da barraca dos cavalinhos .
7.
Saudades do Sporting e do Atlético,
do Ginásio e do Benfica,
saudades do Talho do Barbosa,
da Drogaria do Rosa ,
e dos bolos da D. Zica.
8.
Saudades da praia do Chiloango
e dos «assaltos» de Carnaval,
saudades da loja do Pires Correia,
do Hotel do Sr. Gouveia,
e da Escola Portugal.
9.
Saudades do Cucas Abelgas,
do Dominguinhos, e do Bacia,
da voz do Mário Cantor,
do Zezinho engaxador,
e da casa da Desvia.
10.
Saudades da á
rvore gigante, (árvore do quintal do Soares Pinto)
frente ao prédio do Brian,
saudades das noites de Natal,
dos bailes de Carnaval,
e da Pastelaria do Lã.
11.
Saudades dos caranguejos do Camarinha,
e da Rosinha dos limões,
saudades da Pensão do Leão,
das marchas de S. João,
e das laranjadas do Pereira Simões
12.
Saudades da Fortaleza de S. Fernando,
e do edifício do Tribunal,
saudades das Festas do Mar,
das Serenatas ao luar,
e dos cazecutas do Carnaval.
13.
Saudades das manhãs de cacimbo,
e do frio, à noite, no Impala,
saudades do comboio bebé,
do Cabéças e do Caté Caté,
da bulunga e da massambala.
14.
Saudade da Baía das Pipas,
da Vissonga e do Barambol,
saudade do Faria das baleias,
das viuvinhas e dos papareias,
e do antigo campo de fut'bol.
15.
Saudades das Furnas de S. António,
da pedreira e do velho moinho,
saudades do Mucuio e da Lucira,
das lojas do Graça Mira,
do Passa Fome e Bigodinho.
16.
Saudades da Baía dos Tigres,
da Humbia, do Virei e da Macala ,
saudades do Arco Carvalhão,
das fogueiras no S. João,
e dos imbondeiros da Bibala.
17.
Saudades do Chapéu Armado,
do Camucuio e da Aguada,
saudade da praia do Chiloango,
das viagens ao Lubango
e do Bairro da Facada.
18.

Saudades da Praia das Conchas,
de Porto Alexandre e do Pinda,
saudades da Leba e do Caraculo,
da tipografia do Trabulo
e da quitanda da Laurinda.
19.
Saudades da Farmácia do Pequito
dos CTT e da Papelaria Regina
saudades do Parque de Campismo
da Oásis e do Turismo
e da Pedra da Delfina

20.
Saudades do basquetebol feminino,
e do oquei em patins,
saudade da Bela e da Minelvina,
da Marlene e da Francelina,
dos Chalupas e dos Jardins.... (continua)

(ass) Djamina


FEITIÇO DO NAMIBE



Feitiço do Namibe...
Flor irreal dum cato imaginário
Que se olha e não se vê...
Infinito que tenta um visionário
E sem saber porquê...

É um querer perder-nos por vontade
E amar a inquietação...
Um misto de esperança e de saudade
A arder no coração...

O aceno da verdade por achar
E da qual se tem fome...
Sede de oásis onde se matar
Estranha dor sem nome...

Miragem sempre vista e apetecida
Que a gente não alcança...
Uma ânsia sem limite, indefinida...
E um sonho que não cansa...

A tese horizontal da unidade,
Posta em verdades claras,
Lição visível da imortalidade,
Em transparências raras.

Feitiço do Namibe...
A mística oração das dunas quietas
E o drama redentor
Dos catos, das welwitschias, dos poetas,
Em comunhão de amor

Dr. José Galvão Balsa
A MOÇÂMEDES


A carícia de uma aragem...
...O feitiço da miragem....
I
GOSTARIA DE CANTAR:
O sortilégio da Terra,
A magia do teu MAR,
com «nereidas» d'encantar...
E a PAZ, em vez de guerra.
II
O DESERTO - imensidão,
onde brota muita flôr.
A eterna solidão
da WELWITSCHIA - mansidão
esp´rança da sua côr...
III
As HORTAS que espontaram,
no BERO E GIRAÚL
PIQUENIQUES QUE PASSARAM,
mas AMIZADES geraram,
sob Céu d´um belo azul!
IV
AS PRAIAS, a AVENIDA...
...Mocinhas a passear,
encantos da sua vida,
n'uma imagem bem querida,
d'amor a desabrochar...
V
O Sol forte de Verão
A carícia d'uma aragem,
a trazer recordação
d'amizade ou de paixão
...O feitiço da MIRAGEM...
VI
GOSTARIA DE CANTAR
com minha voz e empenho,
no DESERTO e no MAR,
mas sem ter de me lembrar,
DA TERRA QUE JÁ NÃO TENHO...

FARO, 12/01/91
Júlio Gomes de Almeida

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Moçâmedes namoradeira


Moçâmedes namoradeira
Joia de rara beleza
Eu canto à minha maneira
Os teus dotes de Princesa

És uma cidade bela
Tão bela que as outras são
Desta África singela
Que trago no coração

Tens ruas tão lindas catitas
Para passear
Moçoilas jovens e bonitas
que são de encantar
Assim sozinha no deserto
Formaste um condado
E a brisa do mar
Vens nos cantar
Um triste Fado

Conversas amenas e alegres
Pelas esplanadas
E prédios tão lindos catitas
De lindas fachadas

Jardins que são uma saudade
E parques também
Tens a felicidade
De seres bem parecida
Com a terra mãe

E denoite
Teu céu estrelado
Lembras-me a minha terra
Da qual me vi separado
Ao ser chamado
P'ra a guerra

Tens assim a nostalgia
da terra onde nasci
Se para ti não voltar um dia
Nunca me esqueço de ti

------------


Impresso no n. 56 da colecção de 1884, do Jornal de Mossãmedes, referente a 4 de Agosto

Hino a Mossãmedes
(canto)

Filha sou dos céus da Europa
Na Lusa terra eu nasci:
Por mãos amigas colhida,
Fui depois plantada aqui.

(Coro)
E, inda nesta zona ardente,
Onde é fogo a terra e o céu
A pobre flor de outros climas
Seu viço a cor não perdeu

Ao triste que, nestas plagas
Chora o lar e os céus d'além...
- Se o lacera a febre ardente.
Vida aqui pedir-me, vem.

É que o perfume saudável.
Que em meus pátrios céus bebi,
Em lindos vales da Europa,
Transforma os erros daqui.

O meu hálito fagueiro
Leva, com grato frescor
À alma -esperança e sorrisos,
Ao corpo - alento e vigor.

Assi, pois, da Europa filha,
Inda aqui sob estes céus.
Flori, cresce e frutifica
A flor bendita de Deus!

ass) Furtado d' Antas

........................................................................................

MOÇÂMEDES

Amanhece o dia neste bairro...
Pelo lado do deserto a luz doce
lenta se levanta, por baixo do cirro,
espreitando-a, como se lânguida fosse...

Cidade espraiada, assim amanhecida,
aguardando em preguiça os afagos,
ansiando calma de certeza já sabida,
amante vivida, de tão doces fados...

Moça, medes teus modos, lenta,
leve, branda doçura do deserto;
morena, brincas com as paixões!

Moça, medes teus modos? Tenta,
as suaves marés estão já perto;
julgas que resistem os corações?


publicado por zé kahango

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Onde estás?

Em desespero,
por ti procuro,
pelo deserto corro.

Onde estás? Onde estás?

Nas velozes patas das gazelas?
Atrás das listras das zebras do Namibe?

Nas grutas por ti procurei,
folhas de welwitchia levantei;
muitas avestruzes espantei,
entre mutiatis me perdi.

Dentro de um oco tronco de embondeiro espreitei,
ao longo do Cunene segui, até à Ondjiva corri.

Às pontas dos olongos indaguei:
"Onde estás? Onde estás?"
(...o eco seco do deserto
no vazio soa, sem regresso...)

As espinheiras revirei, a volta dei,
pelo Pico do Azevedo procurei;
pelo Bruco a serra trepei.
Temendo perder-te, meu coração explodir não quis:
subiu gritando - "Onde estás? Onde estás?"

Sem ecos, ressoa, no céu rebomba
o trovão, as águas;
será sob esta chuva que te vou encontrar?

Ah! Huíla, Huíla,
Chão da Minha Amada,
diz-me se é aqui que acho a chave,
a chave do fecho deste desespero:

Onde estás, onde estás, Meu Amor?


publicado por zé kahango

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Moçâmedes

Moçâmedes!
meu berço,
Minha terra e terra de peixes encarnados,
Disse assim meu pai
na MUSA FERIDA,
Poesia que lá se vai
Em S. Tomé perdida
Entre uma «guerra» e outra «guerra»...

Terra do Namibe
Lá onde a chuva não cai
nas areias escaldantes
E no mar que encerra em si próprio o céu azulado,
E que vem e vai
Na sua praia,
Onde correm caranguejos de terra.
Terra do atum e do pungo
E de imensas pescas,
Onde o mar em braza
É espelho do sol radiante,
Que amorena mais corpos fêmeas de donzelas
De Riquitas Bauleth,
Lembrando as gazelas do deserto do Calahari

De porte elegante,
Quando rompe o dia

Nas manhãs e tardes frescas

Tapada das Mercês, 06 de Outubro de 2002
Carlos Caldeira de Victória Pereira

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Hino a Mossãmedes
(canto)

Filha sou dos céus da Europa
Na Lusa terra eu nasci:
Por mãos amigas colhida,
Fui depois plantada aqui.

(Coro)
E, inda nesta zona ardente,
Onde é fogo a terra e o céu
A pobre flor de outros climas
Seu viço a cor não perdeu

Ao triste que, nestas plagas
Chora o lar e os céus d'além...
- Se o lacera a febre ardente.
Vida aqui pedir-me, vem.

É que o perfume saudável.
Que em meus pátrios céus bebi,
Em lindos vales da Europa,
Transforma os erros daqui.

O meu hálito fagueiro
Leva, com grato frescor
À alma -esperança e sorrisos,
Ao corpo - alento e vigor.

Assi, pois, da Europa filha,
Inda aqui sob estes céus.
Flori, cresce e frutifica
A flor bendita de Deus!

ass) Furtado d' Antas

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A Escala Vai Começar

para o Sr. Domingos
um pescador de eleição

Foi assim que, de repente, hoje acordei
e surpreendido senti, como quem sonha,
que era lá que me encontrava, e não aqui
- surpresas do mundo da poesia, bem sei –
mas estava lá, bem na Ponta do Noronha.

Aos meus pés, a penedia, o Mar e a baía.
Acredita. Não pode haver mais feliz despertar.
A manhã clara, o mar calmo e transparente
mostravam a vida que nele vivia febrilmente
e, à tona, estrelas corriam no espelho cristalino,
revelando, a cada instante, imensos cardumes
a perseguirem-se, levantando brilhos e lumes.
Nas ricas águas, sob um céu azul ultramarino.

No ar, passam alegres bandos de gaivinas,
Gaivotas e garajaus que não cessam de grasnar
e, depois de quase parar, num constante vaivém,
a pique mergulham, perseguem o peixe e vêm
com o fruto do seu lidar, nos bicos a agitar.
Ajeitam e engolem-no. É o seu melhor manjar.

De repente noto movimentos e gritaria nas pontes
Que ao longo da beira-mar se espalham, em profusão.
Negros, Mulatos. Brancos, na maioria contratados,
Falam alto, fazem apostas e com os braços apontados
Vão dizendo os nomes dos mestres ou da embarcação
Que mais se destacada vem, ou de todos juntos, aos montes.

São os pescadores que regressam de uma noite de labor,
Que agora ali vêm, felizes, trazendo o fruto do seu suor
e, ansiosos de primeiro chegar, e sua mulher e filhos beijar
pela vitória da canoa ou traineira, acabadinha de comprar.
Nas pontes alinham-se homens e bancos: a escala vai começar.
…
Nesse momento alguém me chama, no meio daquela agitação,
- Hoje é dia de trabalho. Toca a levantar! – São seis horas João!
E pronto! Lá se foi a minha alegria, todo o encanto e satisfação.

João M. Mangericão
( Neco )
Barreiro, 9.08.2005

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MOÇÂMEDES – ANGOLA

Moçâmedes, cidade bela

Duma beleza sem par

És qual princesa à janela

Olhando as ondas do mar

Moçâmedes de graça infinda

Meu jardim de lindas flores

Moçâmedes das moças lindas

Moçâmedes dos meus amores

Torre do Tombo adorada,

Saudoso Pau do Sul,

Lembro o Bairro da Aguada

E as hortas do Giraúl.

Lembro a Praia das Miragens

E o Deserto do Namibe

Onde a Welwitscia Mirabilis

E a gazela nasce e vive.

Tudo o que tenho te devo

Minha Moçâmedes querida

Tu és todo o meu enlevo

Por ti eu daria a vida

Senti grande desconforto

Quando um dia te deixei

Ao sair desse teu porto

Olhei para trás e chorei

Já vinha longe o navio

Ainda olhei mais uma vez

Essa terra de algarvios

Um milagre que Deus fêz

Para sempre, terra amada

Os meus olhos te perderam

Mas sempre serás lembrada

Por todos que em ti viveram.

São João do Estoril, 4/8/992.

Robaial.- Rodrigo Baião Alcario

..........................
................................

r

A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado

Por gente escolhida a dedo

Para ir caçar um veado

Ao «Pico do Azevedo».

Tudo «malta» conhecida

E por isso eu aceitei

No outro dia à partida

No grupo me incorporei.

Era o Virgílio e era eu

O Aníbal e o Zeca Assis

A carrinha percorreu

Todo o caminho num triz.

Ainda bem cedo chegámos

Junto à Pedra da Delfina,

E todos nos apeámos

Não esquecendo a carabina.

A essa hora do dia

O sol era abrasador

A «malta» já mal podia

Suportar tanto calor.

Tinha a Pedra uma entrada

Que ia dar a um desvão

E a «malta» entrou encalmada

E deitou-se à fresca no chão.

Quando o sol já descaía

Para as bandas do poente

A «malta» toda saía

Da Pedra alegre e contente.

Metemos pelo deserto

À procura das gazelas,

E logo ali mesmo bem perto,

Fomos encontrar com elas.

O Zeca Assis apontava

A arma que tinha na mão

E a gazela que pastava,

Tombou ferida no chão.

Todos nos precipitamos

Para a gazela atingida

E ao chegar verificamos

Que ela ainda tinha vida.

Com certeza nunca viste,

E eu não mais desejo ver

O olhar sereno e triste

Duma gazela a morrer.

S. João do Estoril, 16/10/96.

ROBAIAL – Rodrigo Baião Alcario


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O DIA MAIS FELIZ

Eu tenho gravada no meu pensamento

Aquela tão doce e querida recordação

Do dia feliz do meu casamento

Naquela igrejinha deSanto Adrião.

Rompia na cidade, alegre e risonho,

O dia popular de Todos-os-Santos

Eu ia afinal realizar o meu sonho

Receber o tesouro dos meus encantos.

Quatro horas da tarde desse lindo dia

Uma brisa amena soprava do mar,

Eu, já inquieto, olhava e não via

O meu querido tesouro à igreja chegar.

Mas eis que um carro à igreja chegou

E toda a gente olhou para aquele lado

Minha linda noiva dele se apeou

E pedia desculpa por se ter atrasado.

Minha noiva intranquila seguia nervosa

De flores na mão e envolta em seu véu

Seu lindo rosto tinha a cor da rosa

Qual Anjo que houvesse descido do Céu.

Pelo braço do pai, que feliz sorria,

Entre alas de amigas ela caminhava

Em todos os rostos se via alegria

E o padre Galhano já nos esperava.

Celebrado o acto com solenidade,

Troca de alianças e beijo marital

Agradeço a Deus tamanha bondade

Dando-me um Anjo meigo e celestial.

Nunca em minha vida tive um dia igual

Eu senti em mim toda a felicidade

Que pode sentir um feliz mortal

Ao sentir-se amado por uma beldade.

Porque nos queremos, porque nos amamos

Nossos juramentos nunca desmentidos

Eu e minha amada junto caminhamos

Em nome de Deus para sempre unidos.

S.João do Estoril, 30/09/97

Robaial / R. Baião Alcario



"ANGOLANO"
Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco EU sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!

de Neves e Sousa (Pintor e Poeta Angola

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RETORNADOS DE ÁFRICA

"A partir de 1975 as pessoas não tiveram mais tempo para pensar e foram obrigadas a começar a trabalhar de uma forma um pouco mais dura do que o normal para recomeçar tudo de novo", recorda o sociólogo das migrações. "Foi a melhor coisa que podia ter acontecido se tivessem entrado numa lógica de reclamar e esperar por indemnizações ainda hoje, 30 anos volvidos, haveria situações complicadas de integração".

Sucedeu o contrário, porém. Os retornados revelaram-se como um grupo com competências muito acima da média da sociedade portuguesa e rapidamente se disseminaram pela sociedade, em vez de se constituírem como uma sociedade colectividade delimitada.

É muito interessante ouvir hoje os retornados falarem das relações entre si "É como companheiros de escola que se encontram passados uns anos e falam sobre a vida do liceu. Quando as pessoas se encontram e acabam por descobrir que são retornados, há logo ali uma relação de afectividade, há um elo comum, resultante de uma desgraça que compartilharam. Depois começam a contar como cada um evoluiu, o que significa que o que é importante já não é o ponto de partida, mas o de chegada, o que interessa é onde se está, onde se chegou".

Diário de Notícias
14.08.05

ENCONTROS E REENCONTROS

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"angolana por direito de solo, portuguesa por direito de sangue, cidadã do mundo por livre opção.»
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